terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Uma imagem, um conto

Laura sentou-se, como habitualmente, no baloiço de onde fitava o horizonte, todo o horizonte que podia entrar pela janela e que lhe fazia recordar o seu passado. O passado... sempre o passado! Será que nunca iria apagar da sua vida toda a história que insistiam em fazê-la relembrar, pedindo que a esquecesse?
Mas será que queria esquecer? Poderia ela esquecer Rafael? Acreditar que ele não a amara? Não, não poderia jamais esquecer a única coisa que tinha feito a sua vida valer a pena. Ainda hoje era capaz de sentir o seu cheiro. Ainda hoje, três anos volvidos, acordava a meio da noite para se aconchegar nos braços dele, aguardando que ele a apertasse docemente contra o peito. Rafael tinha o dom de penetrar através da sua alma com um único olhar. O olhar que lhe tinha lançado naquele último dia, ainda assim carregado de amor, em vez do rancor que ela merecia. Não, definitivamente não podia esquecer, não podia duvidar, mesmo sabendo que “uma menina como Laura não deveria ousar pensar assim, recordar assim”.
Hoje sentia um estranho misto de sensações e sentimentos. O seu coração estava finalmente vazio, como lhe havia sido exigido durante os últimos três anos, sem nunca o ter conseguido. Caíra numa felicidade inexplicável que a tinha, porém, transportado até à mais profunda das fraquezas. Vazio, tão vazio como aquela sala onde podia ouvir um eco de si própria e, agora, dos passos da madame Mimi que caminhava na sua direcção apressadamente. “A carta menina...”, sussurrou entre dentes, como se também ela pudesse compreender.
Laura aproveitou as poucas forças que lhe restavam para esticar o braço e apanhar a carta das mãos de Mimi. Abriu-a cuidadosamente e sugou as palavras letra a letra com a mais ternurenta atitude. Era o que esperava. No fundo já o sabia desde que, logo pela manhã, se tinha erguido a custo da cama. Encheu-a, pela última vez, uma força extraordinária com que agradeceu à madame Mimi e lhe exigiu que a abandonasse sozinha naquela sala, onde aguardara, dia após dia, uma notícia dele.
Uma hora mais tarde, a atenciosa ama que sempre fora a maior confidente de Laura entrou pela sala levando o tabuleiro de chá e os bolinhos de que também Rafael tanto gostava. Mimi ficou imóvel durante uns segundos assimilando a cena que, na aldeia, sempre a advertiram que haveria de ver “lá na casa grande”. Apanhou a carta da mão que Laura havia deixado cair sobre as pernas. Fitou uma última vez os olhos verdes de Laura que fixavam o horizonte e correu pelo chão de soalho da casa em direcção ao escritório.
- Monsieur... a menina...
As palavras não saíram da boca de madame antes que o Dr. Raúl tivesse tempo de apanhar a carta das suas mãos e ler as quatro linhas...as únicas quatro linhas que bastaram para compreender...
“Sim, o bravo Rafael morreu. Faleceu esta manhã em combate mas uma coisa posso garantir-lhe, sabendo Deus o que me custa a mim, homem de guerra, admiti-lo: nem por um segundo menina Laura, nem mesmo no último suspiro, Rafael deixou de amá-la...”

sexta-feira, 20 de junho de 2008

EPIDURAL: sim ou não?

Vindas de perto ou percorrendo muitos quilómetros, recorrem a maternidades das quais, muitas vezes, só sabem uma coisa: ali podem socorrer-se da analgesia epidural.
Uma técnica com menos de meio século de existência que já se tornou uma prática diária em grande parte das maternidades e hospitais de Portugal.

Tudo por um parto sem dor

A epidural é uma técnica de analgesia regional que visa bloquear o estímulo nervoso conhecido como “dor”, de modo a que não seja percepcionado pelo sistema nervoso central.
Recomendada como a analgesia indicada para diversas situações ficou, no entanto, conhecida pela capacidade de proporcionar às mulheres um parto totalmente consciente e sem dor.
Sofia, nome fictício, deu entrada nas urgências da Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra, já em trabalho de parto efectivo.
Foi acolhida e avaliada pela equipa que a reencaminhou para a Unidade Materno-Fetal.
Com três centímetros de dilatação e prestes a ser mãe pela segunda vez, Sofia confessa que já não se recordava das dores provocadas pelas contracções do trabalho de parto e questiona as enfermeiras, por diversas vezes, sobre a possibilidade de se socorrer da “técnica milagrosa”.
Helena Gomes, enfermeira desta unidade há doze anos, explica que, à medida que as contracções e as dores vão aumentando, “a ansiedade das gestantes cresce e os receios sobre a epidural transformam-se, frequentemente, na certeza de a quererem utilizar”.

O "tão-esperado" momento

Quando as parturientes entram na Sala de Partos, a equipa de enfermagem procura desmistificar os preconceitos que envolvem a técnica de analgesia epidural e esclarecer que este é, sem dúvida, o método mais eficaz de superar a dor.
Depois da decisão tomada, é o obstetra que avalia a paciente, despista contra-indicações e propõe ao anestesiologista a epidural.
Auxiliado por um enfermeiro do Bloco Operatório, o anestesiologista aplica na parturiente um analgésico capaz de reduzir a sensibilidade dolorosa, através de um cateter que é colocado no chamado espaço epidural e que permanece no local até ao nascimento do bebé.
Florbela Cavaleiro, enfermeira da Sala de Partos há quase oito anos, conhece bem as diferenças entre um parto com e sem epidural.
A especialista em saúde materna e obstétrica garante que “uma parturiente que levou epidural está muito mais tranquila e vive o parto de forma bastante participativa”.
De facto, cerca de 20 minutos após ter-lhe sido injectado o analgésico, Sofia aguardava o momento do nascimento com um sorriso rasgado e já praticamente sem dores.

Profissionais de Saúde aconselham?

O trabalho de parto pode ser um processo longo e doloroso que nem todas as mulheres são capazes de suportar, pelo que, actualmente, só uma taxa muito reduzida de parturientes diz não à técnica de analgesia epidural.
Talvez este factor possa justificar a diferença de afluência que distancia a Maternidade Bissaya Barreto de maternidades e hospitais como o de Leiria, onde o recurso à técnica não é garantido 24h por dia.
António Rodrigues, enfermeiro do Bloco Operatório há sete anos, não hesita em aconselhar vivamente a técnica.
Da mesma opinião parece partilhar Victor Melo, médico especialista em ginecologia e obstetrícia, que afirma que uma parturiente a quem foi administrado o analgésico através da epidural “está calma, óptima e com bom-astral” para colaborar e participar melhor.

domingo, 8 de junho de 2008

Em entrevista...

O jornalista Francisco Salgueiro estreou-se na literatura nacional, em 2003, com o irreverente Homens há Muitos.
Três anos e dois livros mais tarde, chegou às bancas outro sucesso: Os Homens das Cavernas também oferecem Toblerones.
Francisco Salgueiro é, ainda, co-fundador de Letras Digitais, a primeira empresa portuguesa a fazer conteúdos para Televisão, Internet e Televisão Interactiva.Vamos conhecer melhor alguns dos seus projectos...

1. Homens há Muitos foi o livro de estreia de autor, em ficção, a vender mais em 2003. Como encarou o sucesso da sua primeira experiência na literatura?
Encarei de forma normal. Porque falar de sucesso cá em Portugal é sempre muito relativo. Aquilo que é um sucesso no nosso país, é um flop num outro grande país europeu. A realidade dos números é assustadoramente diferente.
Acho que é muito importante termos os pés bem assentes na terra e percebermos que não somos nem mais nem menos porque temos um livro que vende uns milhares de exemplares.

2. Como surgiu o projecto Letras Digitais e qual o seu papel no seio desta empresa?
Surgiu numa altura em que era free lancer, escrevendo para vários jornais e revistas e coincidiu com o aparecimento da internet em grande força, em Portugal.
Havia a necessidade de conteúdos escritos para sites e, posteriormente, para a televisão interactiva. Como não podia escrever tudo sozinho e como o excesso de trabalho era cada vez maior, houve a necessidade de criar uma estrutura.
Neste momento sou o sócio gerente da empresa.

3. Como foi a experiência de trabalhar para os Estados Unidos?
A hipótese surgiu através de uma amiga minha que tem conhecimentos na área de produção cinematográfica nos Estados Unidos.
Foi uma experiência muito interessante, tanto em termos de conteúdo de escrita (foram os primeiros guiões que escrevi e têm uma linguagem totalmente diferente de um livro), como em termos de mercado (o funcionamento profissional com que encaram a produção de filmes é totalmente diferente daquilo que existe em Portugal).

4. Como classificaria o actual jornalismo português?
Está cada vez mais ligado aos interesses dos grupos económicos onde os meios de comunicação estão inseridos.
Todos defendem virtudes, mas, no fundo, todos acabam por ser escravos das administrações e accionistas.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O Jornalista Cidadão vs Jornalista Profissional

Desengane-se quem julga que o jornalismo actual passa somente pelas mãos de profissionais competentes e preparados (a vários níveis) para construir a narração da realidade através de meios diversos (áudio, vídeo, texto).
É preciso notar um fenómeno que tem vindo a intensificar-se de dia para dia: o passivo leitor transforma-se, cada vez mais, em cidadão activo, criador do seu próprio mundo noticioso.
Pode dizer-se que o desenvolvimento das tecnologias foi, talvez, a rampa de lançamento para esta nova realidade. Páginas pessoais, blogs, telemóveis de última geração, câmaras de uso pessoal, portáteis, podcast, ipods…uma imensidão de recursos é posta ao uso do comum cidadão que necessita, apenas, estar “no local certo, à hora certa”, munido de um destes aparelhos.
Aliás, até o mais desatento observador é capaz de se aperceber que muitos dos grandes “furos jornalísticos” que chegam até nós presentemente são ou foram captados pelos cidadãos e aproveitados pelos meios de comunicação social, sendo que nem sempre é a eles que chegam directamente.
É um facto que alguns cidadãos repórteres, como lhes chamou Dan Gillmor, são já “caçadores” de notícias, capazes de perceber se um ou outro facto se enquadra nos critérios jornalísticos. Neste caso, são os próprios que tomam a iniciativa e fazem chegar aos media os produtos que recolheram, contudo, é, também, verdade que muitos meios de comunicação recorrem já a páginas pessoais ou páginas de divulgação de vídeos, como o tão conhecido youtube, para identificarem factos que podem tão bem transformar-se num produto noticioso de alta repercussão.
Não é preciso muito para recordarmos que os grandes desastres da última década chegaram até nós através de vídeos e depoimentos de quem teve a oportunidade (privilégio, acaso ou infortúnio) de assistir directamente: o derradeiro dia das Torres Gémeas, a força das águas do Tsunami ou os atentados terroristas em Londres, momento em que, segundo o autor supracitado, “o jornalismo dos cidadãos chegou à superfície”.
Talvez para se adaptar à nova tendência do jornalismo apontada por Mark Glaser no relatório “Tendências nas redacções 2006”, segundo a qual o novo chefe de redacção deve ser capaz de “integrar o desafio de publicar artigos enviados pelos leitores”, a estação de televisão portuguesa TVI juntou-se recentemente às cadeias norte-americanas CNN e MSNBC ou jornal britânico The Times. O desafio passa por incentivar os espectadores a enviar fotografias e vídeos de acontecimentos a que só eles tenham assistido ou que considerem de elevada importância. No regulamento da iniciativa que a estação apelidou de “Eu Vi” pode ler-se que as peças, realizadas a partir do material enviado pelo público, devem ser emitidas num “espaço informativo, na medida em que se considere que os mesmos têm qualidade e relevância noticiosa, de acordo com o respectivo critério editorial”.
Para muitos, este é o inicio de um novo jornalismo que, daqui em diante, segue o caminho da interactividade e do aperfeiçoamento. No entanto, não será coerente questionar se esta oportunidade não desencadeará a busca desenfreada de informações (à semelhança do que já se vive no mundo jornalístico) e a procura do cidadão, a todo custo, da utilização do seu material por um meio de comunicação, tornando-se, somente, na abertura de mais uma porta que possibilita a violação dos direitos do cidadão e dos dispostos, por exemplo, na Lei da Imprensa?

Fontes:

A Venezuela de Hugo Chávez

Em alguns dos países mais pobres do Mundo, ele é uma referência incontornável. Mas é associado ao ódio e às calúnias que, tantas vezes, escutamos o seu nome.
Hugo Rafael Chávez Frías protagonizou, em Fevereiro de 1992, mais precisamente no dia 4, um golpe de estado contra o governo do presidente Carlos Andrés Pérez na Venezuela.
Para Chávez, foi, apenas, a reacção certa à crise que o país vivenciava no momento, para a Venezuela, o começo de uma nova era.
O 53º presidente da nação sul-americana é acusado de chefiar, sem dó, um regime ditatorial e comunista. Certo é que, independentemente das opções do seu governo, Hugo Chávez foi reeleito, no ano de 2006, com 62.9% dos votos.
Em 2007, o boicote da oposição às eleições legislativas concedeu-lhe novos e amplos poderes, os quais parecem ter facilitado o desenvolvimento da economia, já que esta atingiu, então, taxas recorde de crescimento.
Se restam dúvidas quanto ao facto do líder ter caído nas graças do povo, não pode negar-se que este senhor é um dos governantes mais irreverentes da sociedade contemporânea. Talvez Hugo Chávez tenha mesmo legitimidade para questionar a muitos “Porque non te callas?”.

Fontes: