quarta-feira, 30 de abril de 2008

O Jornalista Cidadão vs Jornalista Profissional

Desengane-se quem julga que o jornalismo actual passa somente pelas mãos de profissionais competentes e preparados (a vários níveis) para construir a narração da realidade através de meios diversos (áudio, vídeo, texto).
É preciso notar um fenómeno que tem vindo a intensificar-se de dia para dia: o passivo leitor transforma-se, cada vez mais, em cidadão activo, criador do seu próprio mundo noticioso.
Pode dizer-se que o desenvolvimento das tecnologias foi, talvez, a rampa de lançamento para esta nova realidade. Páginas pessoais, blogs, telemóveis de última geração, câmaras de uso pessoal, portáteis, podcast, ipods…uma imensidão de recursos é posta ao uso do comum cidadão que necessita, apenas, estar “no local certo, à hora certa”, munido de um destes aparelhos.
Aliás, até o mais desatento observador é capaz de se aperceber que muitos dos grandes “furos jornalísticos” que chegam até nós presentemente são ou foram captados pelos cidadãos e aproveitados pelos meios de comunicação social, sendo que nem sempre é a eles que chegam directamente.
É um facto que alguns cidadãos repórteres, como lhes chamou Dan Gillmor, são já “caçadores” de notícias, capazes de perceber se um ou outro facto se enquadra nos critérios jornalísticos. Neste caso, são os próprios que tomam a iniciativa e fazem chegar aos media os produtos que recolheram, contudo, é, também, verdade que muitos meios de comunicação recorrem já a páginas pessoais ou páginas de divulgação de vídeos, como o tão conhecido youtube, para identificarem factos que podem tão bem transformar-se num produto noticioso de alta repercussão.
Não é preciso muito para recordarmos que os grandes desastres da última década chegaram até nós através de vídeos e depoimentos de quem teve a oportunidade (privilégio, acaso ou infortúnio) de assistir directamente: o derradeiro dia das Torres Gémeas, a força das águas do Tsunami ou os atentados terroristas em Londres, momento em que, segundo o autor supracitado, “o jornalismo dos cidadãos chegou à superfície”.
Talvez para se adaptar à nova tendência do jornalismo apontada por Mark Glaser no relatório “Tendências nas redacções 2006”, segundo a qual o novo chefe de redacção deve ser capaz de “integrar o desafio de publicar artigos enviados pelos leitores”, a estação de televisão portuguesa TVI juntou-se recentemente às cadeias norte-americanas CNN e MSNBC ou jornal britânico The Times. O desafio passa por incentivar os espectadores a enviar fotografias e vídeos de acontecimentos a que só eles tenham assistido ou que considerem de elevada importância. No regulamento da iniciativa que a estação apelidou de “Eu Vi” pode ler-se que as peças, realizadas a partir do material enviado pelo público, devem ser emitidas num “espaço informativo, na medida em que se considere que os mesmos têm qualidade e relevância noticiosa, de acordo com o respectivo critério editorial”.
Para muitos, este é o inicio de um novo jornalismo que, daqui em diante, segue o caminho da interactividade e do aperfeiçoamento. No entanto, não será coerente questionar se esta oportunidade não desencadeará a busca desenfreada de informações (à semelhança do que já se vive no mundo jornalístico) e a procura do cidadão, a todo custo, da utilização do seu material por um meio de comunicação, tornando-se, somente, na abertura de mais uma porta que possibilita a violação dos direitos do cidadão e dos dispostos, por exemplo, na Lei da Imprensa?

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