Laura sentou-se, como habitualmente, no baloiço de onde fitava o horizonte, todo o horizonte que podia entrar pela janela e que lhe fazia recordar o seu passado. O passado... sempre o passado! Será que nunca iria apagar da sua vida toda a história que insistiam em fazê-la relembrar, pedindo que a esquecesse?Mas será que queria esquecer? Poderia ela esquecer Rafael? Acreditar que ele não a amara? Não, não poderia jamais esquecer a única coisa que tinha feito a sua vida valer a pena. Ainda hoje era capaz de sentir o seu cheiro. Ainda hoje, três anos volvidos, acordava a meio da noite para se aconchegar nos braços dele, aguardando que ele a apertasse docemente contra o peito. Rafael tinha o dom de penetrar através da sua alma com um único olhar. O olhar que lhe tinha lançado naquele último dia, ainda assim carregado de amor, em vez do rancor que ela merecia. Não, definitivamente não podia esquecer, não podia duvidar, mesmo sabendo que “uma menina como Laura não deveria ousar pensar assim, recordar assim”.
Hoje sentia um estranho misto de sensações e sentimentos. O seu coração estava finalmente vazio, como lhe havia sido exigido durante os últimos três anos, sem nunca o ter conseguido. Caíra numa felicidade inexplicável que a tinha, porém, transportado até à mais profunda das fraquezas. Vazio, tão vazio como aquela sala onde podia ouvir um eco de si própria e, agora, dos passos da madame Mimi que caminhava na sua direcção apressadamente. “A carta menina...”, sussurrou entre dentes, como se também ela pudesse compreender.
Laura aproveitou as poucas forças que lhe restavam para esticar o braço e apanhar a carta das mãos de Mimi. Abriu-a cuidadosamente e sugou as palavras letra a letra com a mais ternurenta atitude. Era o que esperava. No fundo já o sabia desde que, logo pela manhã, se tinha erguido a custo da cama. Encheu-a, pela última vez, uma força extraordinária com que agradeceu à madame Mimi e lhe exigiu que a abandonasse sozinha naquela sala, onde aguardara, dia após dia, uma notícia dele.
Uma hora mais tarde, a atenciosa ama que sempre fora a maior confidente de Laura entrou pela sala levando o tabuleiro de chá e os bolinhos de que também Rafael tanto gostava. Mimi ficou imóvel durante uns segundos assimilando a cena que, na aldeia, sempre a advertiram que haveria de ver “lá na casa grande”. Apanhou a carta da mão que Laura havia deixado cair sobre as pernas. Fitou uma última vez os olhos verdes de Laura que fixavam o horizonte e correu pelo chão de soalho da casa em direcção ao escritório.
- Monsieur... a menina...
As palavras não saíram da boca de madame antes que o Dr. Raúl tivesse tempo de apanhar a carta das suas mãos e ler as quatro linhas...as únicas quatro linhas que bastaram para compreender...
“Sim, o bravo Rafael morreu. Faleceu esta manhã em combate mas uma coisa posso garantir-lhe, sabendo Deus o que me custa a mim, homem de guerra, admiti-lo: nem por um segundo menina Laura, nem mesmo no último suspiro, Rafael deixou de amá-la...”
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